OBSERVAÇÃO ASTRONÔMICA NO PINHO: UMA REVOLUÇÃO CIENTÍFICA

Na noite do dia 18/8 (terça), estudantes do Ensino Médio do período noturno da Escola Estadual Margarida Pinho Rodrigues vivenciaram a experiência de decisiva importância ao reconhecimento da teoria heliocêntrica do astrônomo e matemático polonês Nicolau Copérnico (1473-1543), ocorrida no século seguinte a publicação de sua obra, sob título Das revoluções das esferas celestes (1543). O autor morreria sob um impasse insuperável à época. A tripla invenção dos instrumentos de navegação (bússola, quadrante e astrolábio) proporcionou ao navegante a condução do navio em viagem à longa distância da costa do continente europeu, promovendo a expansão marítima e territorial europeia no final da Baixa Idade Média (séc. XIV-X), conhecida como Grandes Navegações. No entanto, à observação astronômica, não havia nenhum invento que possibilitasse a Copérnico empreender a verificação do sistema da disposição dos corpos celestes prevista matematicamente por ele, de modo a obter o reconhecimento de seu modelo, segundo o esquema da funcionalidade pelas leis naturais do movimento cíclico dos corpos celestes ao redor do Sol. Estava fadado, portanto, à observação a olho nu que desde a Antiguidade servia ao registro do percurso dos astros na esfera celeste, bem como a dúvida metódica sobre o aparente curso irregular dos planetas, dada a regularidade de movimento retrógado periódico, à validade do modelo milenar da centralidade fixa da Terra à rotação dos demais corpos celestes, proposta pelo astrônomo e matemático greco-egípcio Cláudio Ptolomeu (c. 90-168), na obra sob o título Almagesto, escrita em meado do século II, sob a base das ideias do filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), ao qual a teoria da Terra imóvel era consequência de seu entendimento conceitual ao movimento do objeto simples, em demonstração na obra intitulada De Caelo [Sobre os Céus].

Ilustração da esfera do mundo na segunda capa da obra De Caelo de Aristóteles (1530).

O ensaio teórico-matemático de Copérnico previa um novo modelo à disposição e movimento dos corpos celestes e do mundo natural. Na possibilidade de demonstração desse modelo teorizado, ter-se-ia a mudança da concepção de mundo geocêntrico-ptolemaico como referência ao movimento dos corpos celestes à percepção heliocêntrica como parâmetro da disposição da Terra em relação aos demais astros celestes e do próprio Universo, de conformidade com a ordem natural da estrutura de sua realidade. Consequentemente, a observação do modelo teorizado como demonstração da natureza do mundo natural redundaria no reconhecimento da autoridade autoral do modelo heliocêntrico, assim como a figurar na galeria dos admiráveis pensadores da natureza do mundo à compreensão de sua lógica, pela sistematização de fórmulas à descrição em nível de cálculo (matemática), a partir dos saberes disponível (tradição astronômico-filosófica) e sob o crivo da cientificidade (observação), com vista ao entendimento prático da leis da natureza da realidade. Caso contrário, seria relegado ao descrédito acadêmico e sofreria severa suspeita sobre sua aptidão ao ofício das artes liberais, motivo à aplicação do exílio a si próprio do estudo da astronomia.

Copérnico conversando com Deus, do pintor do polonês Jan Alojzy Matejko (1872).

Não seria temerário, portanto, considerar como um dos motivos da publicação da obra de Copérnico concomitantemente à sua morte, apesar da anterioridade da divulgação de suas ideias, envolveu o fato de sua consciência que lhe era indisponível epor certo, até mesmo de feito impensável à época, de instrumento à demonstração da validade do modelo heliocêntrico além da observação a olho nu. Os antigos construíam elevadas edificações intentando a observação mais próxima dos corpos celestes. Ao contrário deles, Copérnico teria de trazê-los à proximidade dele, mas que nem em ficção imaginária era-lhe concebida qualquer verificação dos corpos celeste além da observação a olho nu. Se lhe fosse disponível a tecnologia apropriada no século XVI, esse mesmo século teria sido palco ao nascimento da Ciência Moderna à ocorrência da Revolução Científica pela mudança de paradigma da concepção do Universo à confirmação da rotação da Terra ao redor do Sol. Na morte, ele entrega sua obra como legado ao mundo: sem devido reconhecimento ou consequente descrédito!

Recorte da página original da obra de Copérnico com o modelo heliocêntrico, seguida de sua representação gráfica.

O legado copernicano encontra seguimento, no século XVII, através da pesquisa do italiano Galileu Galilei (1564-1542), astrônomo, matemático e engenheiro, considerado o pai da ciência moderna e do método científico, do qual a reprodução de um feito realizado por ele de imensa importância ao surgimento da Ciência Moderna foi vivenciada pelos estudantes do Ensino Médio do período noturno do Pinho. Após aquisição de equipamento que permitia a visualização de objeto à longa distância e ao aperfeiçoá-lo à aproximação dos astros celestes do observador, Galileu disponha de um telescópio à prática da observação astronômica com capacidade de aumento focal em torno de 30 vezes. Ao apontá-lo em direção ao céu noturno, obteve observações visuais das fases de Vênus, dos quatro maiores satélites de Júpiter e dos anéis de Saturno. Essas observações proporcionaram a definitiva verificação do modelo heliocêntrico previsto matematicamente por Copérnico, mas somente, então, como da natureza ordenada da esfera celeste a centralidade do Sol ao movimento de rotação da Terra e dos planetas, com superação do impasse relacionado à observação do movimento retrogrado deles, dentre outras ocorrências sob insuficiente entendimento especulativo aristotélico-ptolomaico milenares.

Telescópio refrator montado à observação astronômica no Pinho.

À semelhança de Galilleu, estudantes do Ensino Médio do período noturno do Pinho realizaram observação astronômica, sob coordenação do professor Cleber Roberto da Silva, docente efetivo na disciplina de Física e amante da astronomia amadora, com diversos cursos na área e participante em grupo de divulgação da astronomia à sociedade. Com montagem de um telescópio refrator da empresa fabricante Sky Watcher à observação astronômica, equipado com uma lente ocular Barlow, tinha-se um equipamento operacional ao público escolar, com aumento focal semelhante ao usado por Galileu Galilei nas observações realizadas no século XVII. Convém ressaltar que, à observação astronômica amadora, categoria da prática no evento e do próprio Galileu, essa capacidade de aumento é ideal, devido ao fato da necessidade de adaptação em ralação ao manuseio do telescópio e a manutenção do foco no objeto celeste, dado ao deslocamento da Terra, equivalente ao espaço de um grau do globo terrestre a cada quatro minutos.

À esquerda, Prof. Cleber da Silva em orientação aos alunos à observação astronômica.

No Brasil tem-se uma história da astronomia como fadada à insuperável defasagem de acesso à observação astronômica, apesar que se verificar um verdadeiro fascínio ao conhecimento e curiosidade a respeito de informações astronômicas, tanto do Sistema Solar quanto do Universo em geral. Essa constatação verifica-se na absoluta percentagem da população que nunca tiveram qualquer oportunidade à prática amadora da observação astronômica, mesmo sob disponibilidade de equipamento nesse característico presente século da tecnologia. Tem-se como agravante, nessa realidade, o fato de que na maioria das escolas brasileiras a percentagem de estudantes que ainda não vivenciaram a experiência da observação astronômica engloba a totalidade dos matriculados, à semelhança da população em geral.

Após observação da Lua Crescente, a aluna Izaura (3º C) faz posse à foto.

Em se tratando da realidade sociopolítica e educacional brasileira, tem-se uma condicionante oriunda dela, que prevalece mesmo sem a significativa influência da ausência de curiosidade científica da população escolar e não-escolar, verificada em sociedades sob semelhante demanda como importante fator nesse quesito. Trata-se da absoluta relação limitante à disponibilidade de equipamento à prática da astronomia pela sociedade, devido ausência de política pública científico-cultural. Copérnico foi condicionado a permanecer na verificação dos corpos celestes a olho nu por falta de tecnologia à época. Na atual lógica educacional brasileira, a comunidade escolar é condicionada a cientificidade da astronomia não por falta de tecnologia ou público interessado, mas pela ausência de implementação de políticas públicas à educação científica pelo poder público.

Segundo relato do professor Cleber Roberto da Silva, foi empreendido por ele semelhante oportunidade de observação astronômica com montagem do telescópio em praça pública da cidade de Mongaguá/SP. Nela se verificou a formação de fila com pessoas interessados em realizar, a maioria delas pela primeira vez na vida, a observação astronômica de um corpo celeste. A demonstração da proporção do interesse de algumas pessoasdestaca o docente, contatou-se no fato de, ao suporem da necessidade de ingresso, para garantir a participação da observação astronômica, já em curso ao público interessado, requisitaram-no ao pagamento, sendo informadas de sua gratuidade ao público.

Professora em observação sob olhar de estudante.

Ainda é preciso ressaltar que a astronomia exerce enorme atração à curiosidade, pesquisa e cientificidade aos adolescentes e jovens. Portanto, a divulgação da produção de seu conhecimento em nível escolar pode-se pensar como de validade inquestionável ao aprendizado e à cientificidade objetiva. Seria de surpreender a verificação da alta percentagem que o estudo da astronomia obteria, entre as ciências do aprendizado escolar juvenil, se uma pesquisa, elaborada a essa faixa etária. Um aluno do Ensino Médio me comunicou sobre sua recente aquisição de um telescópio. Se ele não estivesse a um bimestre da conclusão do Ensino Médio, em ensaio de aceno à despedida da comunidade escolar do Pinho, buscaria levá-lo a sonhar com a possibilidade da organização de um Clube de Astronomia no Pinho.

De certo, a observação astronômica foi experimento determinante à ocorrência da Revolução Científica do século XVII, o que torna o primeiro olhar na ocular de um telescópio com foco em um objeto celeste, atualmente, numa espécie de iniciação formal ao paradigma da cientificidade moderna inaugurada pelo novo modelo à natureza do mundo e do feito tecnológico de trazer o corpo à proximidade do observador. Desse modo, o evento de observação astronômica proporcionada aos alunos do Ensino Médio do período noturno do Pinho teve caráter de cientificidade objetiva, no qual os participantes realizaram o upgrade (atualização) à cientificidade moderna, pela observação dos corpos celestes com experimento de alcance técnico não possível à convencional experiência a olho nu.

Funcionário da secretaria escolar à participação da observação astronômica.

Sob enfoque da prática da astronomia na E. E. Escola Margarida Pinho Rodrigues, tenha-se, então, como verdade histórico-científica, que a não realização do referido experimento astronômico, a saber, colocar o olho na ocular de um telescópio à observação de um corpo celeste (Lua, Vênus, Marte, Jupiter ou Saturno), corresponde a permanência formal à anterioridade da consciência paradigmática da Revolução Científica do século XVII. O método científico, característico da Ciência Moderna, não comporta um estado experimental de cientificidade, no qual o indivíduo tem a referência do objeto (encontrado na direção apontada pelo dedo), mas jamais busca verificá-lo em nível experimental: a observação de sua natureza. Isso considerado, pode-se afirmar que no Pinho vivenciou-se uma noite de experiência à Revolução Cientifica do século XVII, como marco inicial, semelhante a Galileu Galilei, no caso de constatação de primeira observação astronômica. Com o olho na ocular do telescópio, a formar fila à observação astronômica, sob motivação da curiosidade cientifica, os estudantes realizam nesse feito a mais significativa expressão da cientificidade moderna, a saber, o encanto da observação do novo e a atração pela verificação de seu além, ainda que aparentemente dado ao entretenimento e destituído de qualquer importância significativa à existência dos participantes.

Tendo a Lua em fase crescente como objeto da observação astronômica, em céu com ausência de nebulosidade na atmosfera, era oportunizado ao evento à comunidade escolar do Pinho uma das melhores posição do satélite natural da Terra à observação de suas crateras, devido à projeção da sombra das montanhas à luz do Sol em baixa altitude no horizonte lunar, como se pode verificar através de fotografia amadora pela lente de smartphone, obtida em observação pela aluna Isabelly Ribeiro (3º C), a seguir:

Lua Crescente em foto amadora obtida pela aluna Isabelly Ribeiro (3ºC).

À grandeza da atitude do professor Cleber da Silva em empreender a disponibilidade instrumental à observação dos corpos celestes à comunidade escolar do Pinho, que evidencia a postura própria do cientista, em busca de divulgar o conhecimento da produção científica à sociedade, expressamos nossa gratidão e firmamos nosso reconhecimento da importância do evento à comunidade escolar do Pinho. Também nossa gratidão à equipe da gestão escolar, na pessoa da vice-diretora Carmen Lucia, pela autorização e logística à participação das turmas ao evento, com expressão de apreço à sua proativa condução da comunidade escolar, sob notória busca da excelência educacional. 

Autor     Prof. J. A. Lucas Guimarães
É historiador, jornalista, escritor e professor efetivo da E. E. Margarida Pinho Rodrigues, com docência nas disciplinas de História e Língua Portuguesa, da qual é organizador do blog EducaPinho, para divulgação das ações culturais escolares à comunidade. 

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